DÉCIO RIBEIRO E SUAS AVENTURAS NO UTMB

04/12/2018 TRAIL RUNNING

Corredor, treinador e proprietário da D-Run Assessoria Esportiva, Décio Ribeiro é o único sulamericano a correr e completar todas as corridas que formam o Ultra-Trail du Mont Blanc. Uma história que começou em 2006 e que levou 10 anos para ser construída e contada. Até 2013 eram quatro provas, e o treinador e atleta já havia completado todas elas. Um ano depois, a organização criou mais uma prova e em 2016, Décio voltou ao UTMB para fazer a OCC. 

Este ano, Décio terá quatro atletas no UTMB e um no CCC. Está focado no treinamento deles para estas e outras provas importantes como os circuitos Indomit e KTR, Ultramaratona dos Perdidos e Cruce de Los Andes, entre outras. Não pensa por enquanto em voltar a fazer uma das provas do UTMB. Mas e se a organização criar uma nova prova no circuito? Será que ele estaria disposto a manter o status de ter feito todas as provas?

“Sim, já pensei. Se for complicada, será complicado para mim. Não estou na mesma pegada de 10 anos atrás. Muitas coisas aconteceram e aquele sangue nos olhos não é mais o mesmo. Nossos objetivos também mudam. Hoje abro mão de um treino longo para ficar curtindo meu filho e minha família”, confessa o treinador-corredor.
 
Hoje, com mais experiência, as provas do UTMB são apenas parte de toda a sua história no trail run. Décio sabe o quanto a modalidade cresceu e o tanto que se profissionalizou, principalmente no exterior. Mas acha que no Brasil há muito o que fazer para que o país seja visto com outros olhos por quem compete em alto nível.

“Sou muito exigente e crítico. Costumo dizer que comecei ‘errado’, pelo UTMB, em que tudo é perfeito e funciona. Tudo que te falam e escrevem no regulamento acontece. A retirada do kit, a fiscalização de equipamentos obrigatórios, os staffs, o apoio de alimentação e o suporte de segurança durante o percurso. 
Vejo a modalidade como algo que veio para ficar. Mas o Brasil está cheio de provas sem estrutura ou com estrutura precária, colocando em risco os corredores”. 

Mas será que algo mudou no treinamento dos atletas que visam provas importantes, difíceis e exigentes com as do UTMB? Afinal são mais de 10 anos desde a sua primeira prova em 2016. Experiência, tecnologia, preparo mental... Para Décio, a principal mudança está na atitude de atletas e treinadores. 

“No treinamento físico quase nada mudou. Mas nas atitudes sim. Cada vez mais eu alerto meus atletas e amigos, de que para encarar estes desafios é preciso treinar com coerência, o que inclui treinos específicos. Fiquei mais calejado e experiente. Posso afirmar que, mesmo preparado física e psicologicamente, sempre podemos ser surpreendidos pela natureza. Todo cuidado e respeito nunca será demais.  A montanha nunca será igual para todos. Cada atleta tem a sua visão dela. O que pode ser tranquilo para um, pode ser perrengue para outro. E a experiência é algo que só se adquire praticando”.



UTMB 2006 e 2007 
Ultra-Trail du Mont-Blanc
170K com 10.000 metros de inclinação positiva
Tempo limite: 46h30min

O espírito aventureiro e desbravador
Para entender um pouco sobre a decisão de correr esta prova – em tese precocemente – é preciso contar um pouco da minha história esportiva. Desde a adolescência, assim como a maioria dos meninos, eu era extremamente competitivo. Não gostava de perder nem em par ou ímpar. E logo após me formar em Educação Física, em 1994, comecei a enxergar a corrida de uma forma mais profissional. E a busca por algo a mais sempre me incentivou a treinar. Após muitas corridas de 10K e meias maratonas, havia chegado a hora de encarar a primeira maratona. Logo após veio a segunda, a terceira... 
Um dia, assistindo um programa de esportes radicais conheci as corridas de aventura. Foi paixão à primeira vista e de maneira coerente e progressiva passei pelas provas curtas de 50/60K, que duravam de quatro a sete horas; pelas provas de 24h, de 48h... Até que em dois anos estava disputando ultras de 500k, que duravam cinco ou seis dias. 
Estas provas, os treinos - muitos treinos – e muitos perrengues me deixaram mais calejado e resistente.
Até que através de um vídeo conheci o UTMB. E decidi encarar este desafio sem nunca ter feito uma prova especifica de trekking nesta quilometragem.  Mas eu já havia ficado 53 horas sem dormir fazendo atividade física intensa. Isso me ajudou. 
Treinei muito. Foram vários treinos longos e intensos, começando final de tarde -  horário da largada da prova -  e terminando só no dia seguinte. Num deles, atravessei a Serra Fina, passando por Agulhas Negras e outras trilhas, num total de 33 horas de treino sem parar.
Com relação à estratégia adotada para a prova, eu nada mudaria. Acertei em optar por fazer uma prova conservadora, ponto a ponto, respeitando o limite do meu corpo. Estava muito motivado por estar naquele lugar mágico. 
Já na logística, eu deveria ter ido mais leve em relação à alimentação. Eu não conhecia e, portanto, não confiava na organização. Quando cheguei nos principais pontos de apoio me dei conta do tamanho da organização e da seriedade deles. Não acho que tenha me precipitado ao optar por fazer a UTMB antes de fazer as provas mais curtas. Sempre acreditei naquilo a que me propus fazer.


PTL 2011 
La Petite Trotte à Léon
300K com 26.500 metros de subida
Tempo limite: 151h30min

Mudança de estratégia
Assim como em 2008, na primeira expedição ao Aconcágua, em 2010 fui obrigado a abandonar a PTL por conta de um início de edema pulmonar. No Km 80, a cerca de 3000m de altitude, comecei a passar mal de novo, com os mesmos sintomas. Então, em 2011, voltei com a mesma estratégia que usei em 2009, quando retornei ao Aconcágua.  Subia e em cada acampamento, tinha um dia de descanso. Quando voltei ao PTL, cheguei quase cinco dias antes da largada. Fiquei num hotel em Les Houches, a 2500m de altitude. Fiz caminhadas leves até 2800/3000m. Depois, parti pra Chamonix, onde por dois dias seguidos subi pra Agulhas de Midi, a 3800m. Passava o dia em cima, lendo, me hidratando e aclimatando também. Feito isso, larguei muito confiante, e monitorando minha oximetria, assim como meus batimentos cardíacos. 
Minha experiência na corrida de aventura me ajudou na logística. Arrisquei-me a correr mais leve, somente com os equipamentos obrigatórios e suplementos importantes. Para o restante, a estratégia foi levar dinheiro e ir abastecendo nos refúgios em pequenas cidades por que passávamos.  Deu certo, terminamos a prova em 6º lugar no geral, fechando esta ultramaratona de trekking com mais de 24mil metros de desnível positivo.

TDS 2012 
Traces des Ducs de Savoie
119K com 7.200 metros de desnível positivo
Tempo limite: 33h

Motivação de sobra
Para quem já havia feito uma prova de 170K, fazer uma de 119K poderia parecer fácil. Mas cada prova é uma prova e cada dia é um dia. O foco já era completar todas as provas, incentivado na época pelo meu patrocinador máster Juarez Rech, da empresa Fortitech. Mas como respeito muito a natureza e qualquer prova longa, me preparei da mesma forma do para as outras, com muito treino. Também estava motivado por estar levando cada vez mais alunos e amigos para este circuito que tanto chama atenção. Não foi fácil, como sempre. Mas consegui terminar dentro do proposto: cansado, mas inteiro e muito feliz.

CCC 2013
Courmayeur-Champex-Chamonix
101K com 6.100 metros de desnível positivo
Tempo limite: 26h30min

Um passeio de luxo – Só que não 
O que parecia ser um passeio ou treino de luxo, junto com 10 atletas da D-Run, tornou-se um martírio. Após passar por Champex, na metade da prova, indo para a super subida de Bovine, meu corpo pareceu sair da tomada. Perdi completamente minhas forças. Não sabia o que havia acontecido, já que sempre me preocupei em me alimentar corretamente, hidratar constantemente, seguindo o protocolo de segurança. Larguei mais conservador e aumentei o ritmo aos poucos, abastecendo em todos os postos. Mas minha energia acabou. Mesmo tendo parado para dormir e fazendo pausas de cinco a dez minutos em todas as subidas. O que ajudou muito foi minha força mental. Havia passado por muitos perrengues nas corridas de aventura, no meu primeiro UTMB e até mesmo no PTL. 
Um ano e meio depois, após quebrar também no Cruce de Los Andes e na Comrades, passei por uma médica ortomolecular e descobri que meu corpo estava totalmente falido, se é que podemos dizer assim. Quarenta exames de sangue mostraram que eu estava totalmente fraco, com muitas vitaminas e hormônios totalmente abaixo da média mínima.

OCC 2016
Orsières-Champex-Chamonix
55K com 3.300 metros de subida
Tempo limite: 14h

Finalmente, um passeio tranquilo
Quando criaram esta prova pensei ‘caramba, eles não vão parar de criar novas provas?’ Mas fui motivado e desafiado a participar desta prova para manter a condição de ser único sulamericano a concluir todas as provas do circuito. Pela primeira vez fui com pouco treino, mas totalmente descontraindo para curtir a prova. Algo que nunca havia feito nos anos anteriores. E realmente é uma prova de estratégia e logística tranquilas, com grau de dificuldade menor. A largada pela manhã também facilita. 

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