CÉSAR PICININ: UM ANO PERFEITO

05/12/2018 TRAIL RUNNING

“O ano passado foi perfeito para mim. Um ano inteiro de dedicação e muito treino. A corrida foi a minha grande prioridade. Tinha grandes desafios e sabia que precisaria me dedicar como nunca. Além de toda preparação, queria muito não ter problemas com lesões e poder correr do início ao fim do ano sem qualquer interrupção. Quem me conhece sabe que luto contra uma chatíssima pubalgia há quase dois anos. 
Comecei o ano encarando meus primeiros 80K e vencendo o Ultra Desafio, em Passa Quatro-MG. Depois vieram outros grandes desafios, como Peneda Gerês Trail Adventure -  corrida de sete etapas em Portugal, num total de 192K. Fui vice-campeão e logo em seguida, ainda na Europa, fui 3º geral nos 50K da Tuscany Crossing, na região da Toscana, na Itália. Em julho encarei o que talvez tenha sido o mais pesado desafio do ano: 105K da Ultramaratona dos Perdidos. Fui 3º no geral. 
No meio do trail running, apareceu o Desafio Samurai da Mizuno Uphill: subir a famosa Serra do Rio do Rastro duas vezes no mesmo dia. Foram 42K de manhã e 25K à tarde.
No último dia de setembro, duas semanas antes da minha prova alvo no Chile, fui vice-campeão nos 50K XTerra Estrada Real, em Tiradentes. Fiquei surpreso com o resultado. Cheguei a temer ter abusado e acabar pagando o preço na prova no Chile, o verdadeiro alvo do ano.

Aí chegou outubro. E no dia 14 fiz os 80K da Endurance Challenge, no Chile. Participei da prova em 2016. Consegui ali a minha melhor performance no ITRA até então. Um 3º lugar nos 50K.  Eu sabia que precisava de 720 pontos para participar sem sorteio das provas OCC, CCC ou TDS no UTMB em 2018. E como já vinha com uma performance próxima deste índice, a prova no Chile seria a grande e última chance de alcançar também esse objetivo.

Reservei um período de férias exatamente para a prova. Viajei na terça-feira para ter um descanso adequado até o sábado e largar na prova 100%. 

Largamos no sábado às 5h da manhã. E do jeito que eu gosto: com frio! Comecei bem, estava na briga entre os ponteiros, mas não senti que estava tão bem assim. Alguns corredores chegaram a tomar a dianteira e sumiram. 
Cheguei a passar em postos de hidratação na quarta posição, mas mantive meu ritmo e fui recuperando posições. Alguns corredores que largaram forte foram abandonando a prova. Passei pelo líder, que estava sentado e parecia desistir. Cheguei no último posto de hidratação já na liderança. 
Ao assumir a liderança, não queria mais perder a oportunidade e passei a correr o mais forte possível, dentro do que sabia que meu corpo aguentaria até a chegada. Fui o campeão e para minha surpresa com uma considerável vantagem para o 2º colocado. O dever estava cumprido: ser campeão numa ultramaratona tão desejada e disputada. Uma das maiores da América Latina. 

Senti o verdadeiro significado e o peso de ser campeão. O reconhecimento é muito maior! Já havia conseguido ótimos resultados e me sentia sempre como se tivesse feito o meu melhor. Mas para as pessoas de fora o "ser campeão" realmente chama muito mais a atenção. O carinho e o reconhecimento foram os maiores que já tive até hoje. 

A sensação é de que até eu mesmo mudei um pouco após essa vitória. Fiquei mais seguro, mais experiente e passei a confiar mais no meu potencial. Tanto que mesmo em fim de temporada voltei a ser campeão no final do ano, nos 45K da  APTR Arraial do Cabo. 

Eu corro por prazer e pela alegria de estar nas trilhas. O prazer de desfrutar da natureza em grandes provas e os resultados acabam sendo um grande bônus de tudo isso. Por gostar tanto desta liberdade, nunca procurei por patrocínios. E até hoje também ninguém me procurou. Talvez seja por esse meu perfil de preferir ter minha liberdade em todas escolhas, desde as provas de que participo até os equipamentos ou suplementos que irei utilizar. Costumo dizer que se algum dia eu for patrocinado será por alguém que realmente queira me ajudar a evoluir e não apenas para me usar. 

O ano já estava sendo perfeito. Conquistei o carinho de muitos, o respeito de outros e até passaram a me considerar como promessa do trail ou até mesmo elite do trail nacional. Ainda não me vejo neste nível, mas o fato é que com a vitória na Endurance Challenge Chile, consegui o índice exato – 720 pontos - para me inscrever sem sorteio no CCC – prova de 101K do UTMB -, que será em 31 de outubro, em Chamonix.

Após um 2017 tão especial, em que tudo deu certo e superou todas minhas expectativas, 2018 começou com uma inesperada convocação, como 2º reserva, para a seleção brasileira de trail running que irá representar o Brasil no Mundial 2018, em maio, na Espanha. A convocação foi mais um prêmio pelo que fiz em 2017. Espero que 2018 seja também muito bom. Meu principal objetivo será uma boa performance no CCC. Mas para chegar lá na melhor forma possível terei que encarar o ano com a mesma dedicação ou até mais do que em 2017. 

Depois de um pequeno descanso no fim do ano, espero que o corpo continue rendendo e respondendo bem a treinos e provas por mais um ano. Mas não há segredo. O resultado é fruto de treino e dedicação. E trabalhe a mente para que ela esteja forte nas ultras, mas sem deixar de levar a vida de forma leve e feliz” 

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