DNF (did not finish)

15/01/2019 TRAIL RUNNING

Reportagem: Paulo Henrique Prudente
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Vinha me preparando para a KTR Campos do Jordão e um mês antes da prova fiz a Patagônia Run. Uma quilometragem menor, com um bom tempo de recuperação. Estudei a KTR, fiz treinos específicos para prova, me alimentei bem, tracei minha estratégia de prova e estudei os tempos anteriores de acordo com as condições climáticas dos anos passados.

Durante a semana da prova só tive um treino de corrida bem leve e pedalei cerca de uma hora. Antes da prova tive dois de atividade zero, com exercícios de mobilidade e alongamentos. Aqueci antes da prova sem sentir absolutamente nada. Largamos, no km 2 um grupo grande correu uns 500 metros a mais fora do percurso, voltamos para o percurso em meio a descida desviando de outros corredores e tentando recuperar posições. Comecei a sentir uma dor absurda em ambos os adutores de coxa. Inicialmente achei que fosse uma câimbra. Continuei, mas era insuportável a ponto de eu gritar de dor e um corredor parar e massagear com gel muscular e me dar sal. Sentei e resolvi esperar melhorar. A essa hora eu não esperava mais brigar por posições. Queria que a dor passasse para terminar a prova. Eu estava ali para isso. Mas a dor era muito forte e eu não conseguia dobrar as pernas. Com apenas 4 km de prova resolvi abandonar e voltar andando para largada. Inicialmente, o sentimento de frustração é bem grande. Colocamos expectativas, traçamos estratégias. É isso que gostamos de fazer: correr! Nunca tinha abandonado uma prova, mas é preciso ter maturidade para aceitar coisas que fogem do nosso alcance”.

O depoimento de Ana Paula Silveira poucos dias depois de se ver obrigada a abandonar a KTR Campos do Jordão dá uma ideia do que passa pela cabeça dos corredores quando isso acontece pela primeira vez, e exatamente numa prova importante para o atleta. Mas o que vem depois? Como ao atleta lida com isso durante sua recuperação e nas provas seguintes? Ana Paula não teve problemas e poucos dias depois já estava de volta aos treinos.

O fato é que nem sempre estará tudo favorável ao atleta. Ana Paula diz que é possível contornar algumas situações difíceis durante a prova, partir para um plano B. Mas em outras... “É chato, mas aceitar é a melhor solução. Nenhum treino foi em vão, e seguimos para os próximos desafios. No momento que você decide abandonar, vendo que não dá para prosseguir, é frustrante. Todo o planejamento, os gastos, o desafio da prova... Mas isso não me assombrava. Eu sabia que um dia poderia acontecer”, conta Ana Paula, de 32 anos, três deles envolvidos no trail running.

A atleta acredita que o medo ou o receio de quebrar em uma prova não deve estar na mente ou no dia-a-dia do atleta. É preciso estar confiante nos treinos e no planejamento feito até a prova. “Devemos estar sempre otimistas e confiar no nosso treinamento, no nosso planejamento. Mas não devemos descartar essa possibilidade. Nas provas em que estou acostumada com a distância, não tenho medo de arriscar. Mas em provas como a KTR Campos do Jordão, com distância e altimetria que ainda não havia feito, adoto uma estratégia bem conservadora. Amadureci muito depois que abandonei essa prova. Pode ser que eu tenha mais receio daqui para frente, seja mais cautelosa. Mas creio que com o passar do tempo, de uma forma geral, todo corredor que abandone uma prova retome a sua confiança”.

O treinador Luciano Schionato não foge do tema, embora reconheça que muitos atletas tenham até receio de tocar no assunto. Trata caso a caso, dando mais ou menos importância de acordo com a situação e com o nível de experiência e de treinamento do atleta. “Isso pode ocorrer com qualquer um, em diferentes situações. Não cobro e nem dou importância quando isso acontece com iniciantes, mas discutimos para entender os motivos. Entre os mais avançados isso pode ser motivo de intervenção em treinos e na preparação. Em ultras, isso pode ocorrer com mais frequência com os atletas bem treinados. Problemas com ansiedade, alimentação, hidratação, condições climáticas e até a manutenção de uma posição durante a prova podem atrapalhar. Então, cada situação deve ser planejada e treinada, na medida do possível. Não é fácil, mas é necessário”, diz o treinador.

“ESSA PREOCUPAÇÃO TEM QUE ESTAR NA MEDIDA CERTA, CASO CONTRÁRIO PODE ATRAPALHAR O DESEMPENHO E DIMINUIR O RENDIMENTO. ESTRATÉGIAS MAIS ARRISCADAS OU CONSERVADORAS DEVEM SER TRABALHADAS NOS TREINOS. É ALI QUE O ATLETA ENTENDE O MOMENTO DE RECUAR OU DE AVANÇAR E AUMENTAR O RITMO. Luciano Schionato
 Receio de quebrar em demasia podem, segundo Luciano, atrapalhar o desempenho. Embora seja uma preocupação justa e até certo ponto aceitável, ela deve ser proporcional ao estágio de treinos, ao nível do atleta e até à importância da prova em vista. “Essa preocupação tem que estar na medida certa, caso contrário pode atrapalhar o desempenho e diminuir o rendimento. Estratégias mais arriscadas ou conservadoras devem ser trabalhadas nos treinos. É ali que o atleta entende o momento de recuar ou de avançar e aumentar o ritmo.

É preciso entender o corpo e suas mensagens para lidar com qualquer revés durante uma prova. O mais difícil, talvez, seja fazer o atleta tirar algo de positivo de uma situação como o primeiro abandono de uma prova. Todo atleta vai passar por isso”, completa Luciano. Com sete anos de experiência no trail running, Carlos Rubi correu a Ultra Fiord este ano. Treinado por Luciano Schionato, Rubim de 31 anos, ainda não passou pela frustração de abandonar uma prova, mas a de ‘quebrar’ e não completar conforme planejado é algo com o que já teve de lidar algumas vezes. “A primeira vez foi em 2014 nos 42K da Chapada Diamantina. Uma estratégia errada e o clima quente me fizeram andar em muitos trechos e quase ter de ser resgatado pelos staffs. A partir dessa prova passei a estudar a alimentação, a hidratação e as estratégias para melhorar meu desempenho. Quando percebi quebrei fiquei frustrado e procurei entender o que fiz de errado.

Depois da prova conversei com outros atletas e vi que havia me equivocado em vários pontos, começando pelas roupas que estava usando”, conta Rubi. O atleta não perdeu tempo ou ficou remoendo o mau desempenho. Já na retomada dos treinos procurou colocar em prática o que absorveu dos corredores mais experientes “A partir dali fui aperfeiçoando e buscando ajuda de pessoas mais experientes no esporte. Fui me conhecendo cada vez mais e tornando as provas mais prazerosas e divertidas. Dois meses depois, quando conclui bem uma maratona trail, vi que havia absorvido aquela quebra. Desde então sempre dou meu máximo. Já sofri muitos tombos durante as provas e mesmo assim continuei. Claro que me conheço muito bem e sei das consequências que posso ter, mas se um dia precisar sair de uma prova, terei a certeza de que fui no limite até chegar a esse ponto. Ficarei frustrado, por que sou competitivo. Mas acredito que vou buscar entender o que me levou a abandonar e adotar uma nova estratégia numa próxima prova”, completa Rubi.

Já Pablo Simonetti, um dos mais experientes atletas brasileiros de trail running - desde 2011 trabalha com preparação física e treinamento para corrida de montanha – sentiu sua maior frustração quando se viu ‘obrigado’ a abandonar a primeira edição dos 55K da APTR Videiras, em 2015. Simonetti errou o percurso quase na metade da prova, quando liderava com folga. “Com base nas análises técnicas do percurso e do perfil dos atletas, eu era um dos favoritos numa prova prevista para 5h45. Fiz os 25K iniciais do percurso em três horas cravadas, com uma vantagem de 30 minutos para o segundo colocado. Estava bem e confiante para bater o recorde da prova, quando por descuido entrei no percurso do curto, somando mais 12K. Quando voltei para o meu percurso já estava em oitavo. Ali já não me sentia bem competitivamente e estava profundamente desanimado por estar fora do desempenho almejado. Tentei me concentrar e na base do coração cheguei a estar em quinto, mas não estava sendo gratificante competir. Inquieto e angustiado, vi um carro de staff da prova e resolvi entrar. Abaixei a cabeça, identifiquei o quanto estava agressivo e fiquei em silêncio para meu ego. Ali a minha grande lição foi aprender a ter paciência no processo de quem realmente somos”, conta Simonetti.

Um mês depois, ainda com as lições de Videiras latejando em sua memória, Simonetti venceu o UTACCH 50K, em Córdoba, Argentina. Segundo o atleta, uma vitória e um desempenho muito relacionado ao ‘fracasso’ em Videiras. “Ter tomado aquela decisão me fez repensar sobre o triunfo do resultado em uma modalidade que depende muito de fatores externos, sobre os quais não temos controle. A lição de Videiras trouxe mansidão e firmeza ao meu coração. Em Córdoba, somente no km44 eu assumi a liderança da prova, que venci com 5h54min”, disse o atleta. Mas a desistência em Videiras não foi o primeiro revés de Simonetti numa prova importante. Em 2014 ele foi convidado para a 1ª edição da XC Itaipava. Faria os 50K solo, com 2.500m acumulados e 8 TRAIL RUNNING premiação em dinheiro para os três primeiros colocados.

Ele já tinha provas importantes no currículo, como El Cruce Los Andes, Ultra Trail Ilha da Madeira, Patagônia Run e KTR Serra Fina, entre outras. Mas ainda lhe faltava experiência em provas mais longas. “Dada a largada, saí bem com um ritmo forte, empolgado pela premiação. Seguia em segundo  arriscando tudo sem uma estratégia de prova por conta da falta de experiência na distância. Passei pelos primeiros pontos de apoio sem me hidratar ou me alimentar com frutas corretamente. Perto do Km30 eu já não era mais o segundo, sentia câimbras, meus adutores travavam e eu lutava com o corpo para subir. Só pensava na premiação e em não abandonar. Queria chegar lúcido. Consegui, num vitorioso quarto lugar, para o qual não havia premiação”, completa Simonetti, que confessa ter aprendido ali a importância de um bom planejamento para quem quer se aventurar em provas longas.
 “YAN CINTRA – MEMBRO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICOLOGIA DO ESPORTE”
A força mental é o grande diferencial nos momentos mais extremos de uma prova de endurance. Essas situações tão intensas muitas vezes nos levam ao limite físico e colocam em dúvida a nossa capacidade de superar as dificuldades encontradas. Um atleta que faz uma boa preparação mental certamente desenvolve seu ‘autoconhecimento’ e consequentemente seu ‘autocontrole’, habilidades mentais fundamentais para nossa capacidade de resiliência e adaptação.

Além disso, uma ‘mente forte’ terá estratégias de concentração, motivação e a autoconfiança necessárias para superar as adversidades. E a frustração é o primeiro sentimento enfrentado após o DIVULGAÇÃO - NA FOTO: PABLO SIMONETTI, fracasso em uma prova. A partir disso, é fundamental que o atleta treine sua capacidade de resiliência, ou seja, a habilidade de lidar com as adversidades, e consiga não só utilizar esta experiência como aprendizado para situações futuras, como também trabalhar sua capacidade de automotivação. Existem diversas estratégias de treinamento mental para lidar melhor com esta situação, podendo-se destacar o ‘pensamento âncora’, ou seja, um pensamento que lhe motiva, algo em que o atleta se anime e se ative sempre que recorrer a este pensamento, como também se ‘focar na tarefa’, aceitar que os erros também fazem parte do processo de treinamento e aprendizagem, entender se o erro ocorreu na preparação, no planejamento ou na estratégia e corrigir o que for necessário para ter um melhor desempenho na próxima prova. Há diferentes perfis de atletas, menos ou mais competitivos.

Mas de uma forma geral é fundamental que o atleta entenda que sua preparação  determinante para o seu desempenho na prova. Jornadas de treinamento mais duras e difíceis que a própria prova faz com que o atleta se sinta mais seguro e preparado para enfrentá-la. Priorizar os treinamentos é fundamental para se manter focado, confiante e consequentemente motivado. Entender isso certamente ajudará o atleta a lidar melhor com o abandono caso seja necessário para manter sua saúde e não prejudicar seu desenvolvimento. Certamente a aceitação de que os fracassos também fazem parte do processo de aprendizagem e desenvolvimento é fundamental para que o atleta lide melhor com os desafios que irá enfrentar, pois desta forma terá menos receio de falhar e mais facilidade em buscar desafios maiores.

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