ESPECIFICIDADES E O TREINAMENTO MENTAL NO TRAIL RUNNING

18/01/2019 TRAIL RUNNING

Como sabemos, nem todo atleta de trail running, amador ou não, tem a facilidade de treinar em percursos técnicos ou com altimetria considerável. A grande maioria deles reside em ambiente de pouca variação altimétrica ou com escassez de trilhas, obrigando-o a se deslocar ou até viajar vários quilômetros para conseguir um treino específico, que muitas vezes é visto equivocadamente como o único treino de qualidade.

Com isso, a demanda de tempo e de dinheiro faz com que o atleta não faça treinos em trilhas na frequência que deveria, ou que ele acha que seria correto fazer. Essa diminuição dos treinos específicos pode abalar o estado mental do atleta. Ele pode achar que o preparo para a prova não foi o adequado. Com isso, seu desempenho real na competição pode ser prejudicado.

Baseado nisso, surgem perguntas como: treinar tão específico é realmente importante? Se é, qual a frequência para isso? De fato, que fatores determinam o sucesso no desempenho no trail? Destes fatores, quais não precisam ser treinados nas trilhas e montanhas? E o que o lado mental tem com isso tudo?
Um dos princípios que regem o treinamento desportivo é o da especificidade. Ele diz que para transferir desempenho obtido num exercício para outro exercício, há a necessidade de ambos serem similares em gesto motor. Isso realmente procede, mas não é só isso. Para realizarmos treinos de alta qualidade específica, precisamos treinar o básico antes. No trail, sabemos que a especificidade seria treinar em trilhas técnicas, com uphill e downhill, e que o resultado final da prova é fortemente relacionado com esses dois fatores: subir e descer bem. Assim, nada seria melhor e mais específico que treiná-los várias vezes por semana.
Entretanto, cabe ao menos duas perguntas aqui: você possui aptidão cardiorrespiratória suficiente para realizar treinos de subida com qualidade? Você possui aptidão muscular para realizar treinos em descida na forma que precisa?

Se a resposta for não, é melhor nem começar a fazer tantos treinos específicos. A frustração e a lesão chegarão antes do desempenho. Em resumo, não se treina o específico sem antes ter um básico como alicerce. Caso você já seja um atleta mais experiente no trail e não resida em ambiente privilegiado para praticar seus treinos, acreditase, de forma empírica, que um treino a cada 15 dias em trilhas técnicas já seja o suficiente. Lógico que se você pudesse treinar uma vez por semana seria melhor ainda. Há uma frase do grande atleta e treinador Fernando Nazário (mestre em Biodinâmica pela UFTM-MG), campeão do Ultra Fiord e do Ultra Trail de Torres del Paine, que diz o seguinte: ‘Como não consigo treinar para cima, para compensar tenho que treinar quilômetros para frente mais que os outros’. Nazário reside em minha cidade, Uberlândia-MG, no coração do cerrado mineiro. Aqui não há montanhas e mesmo assim este atleta atingiu excelentes resultados no trail.

Conseguir ótimos resultados treinando de forma pouco específica é bem possível. Há vários fatores que determinam o desempenho final de uma prova trail e somente poucos deles são realmente específicos (parte técnica e a dupla tarefa). Diversos outros formam o alicerce fisiológico e são desenvolvidos treinando em estradas e academias. Exemplos: talvez o fator determinante principal do trail, pelo tempo que se gasta subindo a montanha, seja possuir elevado valor de VO2 máximo e/ou sua velocidade associada. Ambos são treinados por HIIT (treinamento intervalado de alta intensidade). Outros fatores, como limiar de lactato e economia de movimento, são treinados em locais que não precisam ser específicos ao trail.

Além disso, o fortalecimento muscular necessário para subir ou para descer forte deve ser treinado na academia de musculação e/ ou funcional, uma vez que treinar downhill com frequência com certeza levará à lesão no quadril e em outras articulações.

Desta forma, outro princípio do treinamento torna-se importante. O da continuidade, que em linhas gerais diz que se manter treinando talvez seja tão ou mais importante do que treinar tão específico.

Mas logicamente há fatores determinantes do trail que não conseguimos treinar em estradas e academias. Os dois principais são a técnica e a dupla tarefa. Não há dados científicos que provem quantas vezes por semana seria ideal irmos para trilha técnica. Mas como qualquer outra habilidade, quanto mais praticamos melhor ficamos. Além disso, a dupla tarefa é algo mais complexo, e como diz meu grande amigo, professor e atleta amador de trail, Cristiano Fetter (Mestre em Ciências do Movimento – UFRGS), aí está a grande diferença entre correr no asfalto e nas trilhas. No asfalto é correr. Nas trilhas é correr e tomar decisões o tempo todo.

MAIS IMPORTANTE QUE ESTE OU OUTRO TREINO É SE MANTER TREINANDO


A dupla tarefa exige estar acostumado a isso. Logicamente necessitando de treinos específicos, principalmente no local da competição. A técnica está dentro da dupla tarefa, mas não é a mesma coisa, uma vez que executar gestos com qualidade é uma coisa. Executá-los em alta intensidade de esforço é outra.

E o lado mental, como se relaciona com isso tudo? O Prof. Dr. João Elias Dias Nunes (FAEFI – UFU), com quem trabalho na Universidade Federal de Uberlândia, diz o seguinte: ‘necessitamos de grande força mental quando o físico está debilitado ou o estresse ambiental está intenso’. Em outras palavras, atletas que estão bem preparados e equipados para a prova, precisarão bem menos de sua resistência mental para suportar as adversidades, seja física ou ambiental. Se o músculo estiver forte e resistente, a fadiga e as dores serão menores. Se os equipamentos forem de ótima qualidade, o frio não será limitante. E se a suplementação e a hidratação estiverem de acordo, a fraqueza e a vontade de desistir diminuirão. 

E se faltar treino técnico para a prova, o que fazer? Foque no 13 que você está bem preparado e ganhe mais tempo lá. Treinar para subir exige preparo físico, treinar para descer exige mais técnica e coragem. Se não conseguiu treinar bem para descer, ganhe tempo nas subidas, usando o ótimo preparo que ganhou treinando, já que não pôde realizar treinos tão específicos com mais frequência.

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